sábado, 23 de maio de 2026

A morte cerca-nos

 Ventor 23.08.05

 

Os sobreiros e os freixos estão a morrer



Os matos e herbáceas estão mortos


As sementes dos sanguinho não resistem e as folhas estão a murchar



Mas é preciso fazer pela vida


 

Ainda há frutos que podem matar ou que podem ser sustentáculo de vida

Ontem fui dar uma caminhada e só vi um melro e uma águia. Pela primeira vez não vi os meus amigos gaios. Vi também os sempre acompanhantes pardais e pintassilgos, mas verifiquei que a vida não está boa para nenhum deles. Este ano de 2005 vai marcar-nos por muito tempo. É a seca, são os incêndios, ... é a calinice de muita gente, enquanto outros são atingidos pela exaustão de trabalhos que não dá para acreditar que é verdade!

As pessoas, nós todos, somos demasiado passivos! Uns por calinice, outros por incompetência. A incompetência brada aos céus e só quem adormeceu não vê! Os fautores de leis querem "é o deles" no fim do mês e outros são uma nossa senhora não te rales. Como é possível permitir que se viva cercado de matos? Como é possível que ninguém faça cumprir os regulamentos estipulados? Como é possível esperar que o inferno nos cerque permanentemente? Há casas instaladas no meio de autênticos matagais para fazer sombras, ou para servir de barris de pólvora? Como é possível que ninguém ligue ao que se passa antes dos incêndios? Só depois? Depois, como podemos verificar, é tarde! E assim vamos nós caminhando neste planeta cheio de arrelias e de permanentes lutas para que a vida continue. Mas eu acho que os fautores da morte é que estão bem vivos!

A hora do Planeta

 Ventor 31.03.12

Todas as horas são ou deveriam ser, no sentido que se pretende, a Hora do Planeta.

A Hora do Planeta, com o objectivo que o WWF-World Wildlife Fund pretende, deveria de existir todos os dias a todas as horas, todos os minutos, todos os segundos que os cidadãos possam dedicar às economias energéticas e não só.

As sociedades modernas são demasiado egoístas e, por isso, se vão tornando retrógradas nas poupanças energéticas que, um dia tanta falta virão a fazer aos vindouros.

Eu penso no futuro daqueles que nos substituirão nas nossas caminhadas. E, quando um dia abandonar a Luz do meu amigo Apolo, gostaria de ir com a ideia constituída de que tudo irá correr bem para os que ficam pois não irei querer que eles venham a ter a vida que eu tive nos primeiros anos da minha vida, vivendo no limiar dos mínimos embora, os possa considerar dos mais felizes que tive.

Porém, recordo-me que, nas nossas aldeias serranas, aprendemos depressa a contar as estrelas e a saber observá-las. Aprendemos a viver com meia dúzia de coisas e a tratar os nossos animais domésticos como nossos iguais, porque eles eram parte integrante da nossa vida. Dependíamos nós, mais deles, que eles de nós.

Por isso, recordo, sempre, esses tempos de um modo muito especial. Desde que saí de Adrão, não mais caminhei de igual modo, com a minha amiga Diana, nas suas noites mais brilhantes, nem voltei a observar, da mesma forma, a minha amiga Vénus, a nossa estrela da tarde e estela da manhã, quer ao cair da noite, quer ao nascer da aurora matinal.

Não tive tempo de acompanhar a Hora do Planeta, mas não me esquecerei que ela deve existir todos os dias, pontualmente, e isso depende de todos nós, até dos elefantes

Por essas e muitas outras coisas recordo os povos que vivem as suas vidas como eu vivi a minha nos primórdios, tal como os Tuaregues, recordando aqui essa gente valorosa, cuja riqueza maior são as areias do deserto, os tufos de ervas verdes que alimentam os seus gados e as nascentes de água potável.

Quando saí de Adrão, com 15 anos, apenas uma vez tinha passado por Arcos de Valdevez, quando fui fazer o exame da 4ª Classe e foi pela primeira vez, numa noite, que dormi fora de casa, na Pensão do Sr. Lima. Dormia em Adrão ou Paradela e, apenas por outra vez dormi no Albergue da Peneda, onde hoje é o Hotel. A partir dos 15 anos, dormi sempre fora de casa! Agora já não tem importância porque dormimos sempre em camas que pagamos ou que nos emprestam por uma ou duas noites. O ninho, nunca mais foi o mesmo!

O Tuareg diz que, saído do deserto da sua vida, chorou ao ver a água correr nas torneiras do Hotel. Que tem saudades de pisar as areias do seu deserto descalço e que, o seu povo era, muitas vezes, nas suas caminhadas nómadas, levado até à água, nascida nas areias desérticas, pelos camelos. Agora, tal como eu, já terá deixado de contar as estrelas de observá-las e de agradecer a sua companhia. Na prática, acabamos por esquecer de as olhar.

Tal como eu, ele tem saudades do leite da camela e eu tenho saudades do leite da ribeira.

Deixem que as flores vivem a nosso lado

Tal como eu, ele sabe que as sociedades ditas ocidentais, mas não só, passam o tempo a correr, a empenhar-se nos bancos, julgando que o sorriso seguinte será mais lindo. Quantos enganos que têm mostrado as crises onde todos, uns mais outros menos, estamos atolados.

Acredito que o Tuareg fique tão espantado com tanta coisa, como eu fiquei, na minha chegada a Lisboa mas, sobretudo, desejo-lhe felicidades no mundo que o vai absorvendo e êxito na Universidade de Montpellier.

Fiquei espantado com a primeira mulher que vi a fumar na minha vida, numa viagem de cacilheiro entre o Terreiro do Paço e Cacilhas, em 1961. Julguei-me estar num outro mundo que não o meu!

Fiquei espantado quando me cruzei com o primeiro indivíduo de raça negra na R. Afonso Galo, em Almada, também em 1961. E tantas outras coisas que também terão espantado o Tuareg, tal como as imagens de mulheres nuas que ele vê nas paredes das cidades francesas ou nas televisões. Não é só desrespeito pelas mulheres, não, amigo. Elas derespeitam-se a si próprias! Têm liberdade para isso.

Eu e o Tuareg temos muitas coisas em comum, especialmente, o azul. Ele tem mesmo que gostar do azul porque, viveu entre o azul do céu do deserto e as areias douradas do seu mundo e, para sua salvação, o tecido que o protegeu do pó, é também de tom azul. Também eu gostava do céu que pairava sobre as minhas Montanhas Lindas, todas verdes. Como gostei do primeiro mar que vi quando, em 1961, tomei o primeiro banho de mar na praia da Costa da Caparica.

Por isso, não só aos tuaregues mas a todos os povos do mundo, lembro-me dos meninos do Huambo e do Niassa, entre outros, eu desejo toda a sorte do mundo e nunca se esqueçam da Hora do Planeta! Pensar na Hora do Planeta é pensar no futuro! 

A história da Vanessa

    Ventor 22.07.04

Vanessa Atalanta

Talvez o Ventor, ainda um dia, vos conte a história da minha "gente" e das nossas desgraças na nossa passagem por este Mundo. Eu sou uma Vanessa Atalata, mas penso que ainda não cheguei a Red Admiral. Talvez não chegue a passar de capitão de mar e guerra!

 

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

A galinha de água

Olá, Quico! Eu sou a Isabelinha, uma galinha de água, muito amiga do Ventor.

A nossa amiga galinha de água chamada Isabelinha

Resolvi escrever-te porque corre por aí, de bico em bico, que tu agora irias passar a receber correio de todos os animais que te quisessem comunicar alguma coisa da sua vida. Eu sei que o Ventor já te fez amigo de todos os animais mas que não gostas de sair de casa. Por isso, não podes apreciá-los como o Ventor faz quando, nas suas caminhadas, os procura para falar com eles e ver como eles vivem.

Além do que o Ventor te conta, e o Ventor não mente, conto-te alguma coisa da minha vida e dos meus amigos. Sim porque nós também temos os nossos amigos e não podemos confiar em mais ninguém. Nem nos outros animais de que o Ventor te fala, nem nesses outros animais também de duas patas e que se dizem humanos. Só abrimos uma excepção para o Ventor.

Eu vivo com um grupo de amigas e amigos aqui num ribeiro que mais parece uma espelunca, porque os homens o estragaram. Disseram-me os meus pais antes de os homens os matarem para os comerem, que já os meus avós lhes contavam que os seus avós e os avós dos avós deles, até aos princípios do Mundo, viviam num Paraíso. Já ouviste falar num Paraíso, onde os animais eram todos felizes, Quico? Claro que já! Ou o Ventor não te contasse!


Estes são os únicos verdadeiros amigos que temos. Os dois sofremos intensamente a predação do homem

Pois olha. Aqui onde eu vivo reza a história da nossa ascendência, que era um perfeito Paraíso. Nestes ribeiros em volta de Lisboa, a água era límpida e brilhava todos os dias para Apolo sempre que ele passava arrastando sobre o nosso mundo o seu robe flamejante das cores mais lindas que possas imaginar. As musas das nascentes desciam os ribeiros sempre a cantar, glorificando o Senhor da Esfera, nas alturas e, ao entrarem no rio mais belo do Mundo, o rio Tejo, juntavam-se com as Tágides e dançavam e cantavam todas felizes e mais ainda quando o Ventor aparecia junto com o nosso amigo Apolo.

Às vezes o Apolo ia-se embora e o Ventor ficava por aqui com Diana, a sua amiga e os dois passeavam nos ribeiros e brincavam no meio destes vales cheios de flores maravilhosas, como faziam no Eufrates e noutros rios do Mundo. Depois, mal Apolo partia, as musas das fontes voltavam a subir os ribeiros até às suas nascentes onde adormeciam, e no dia seguinte, logo que Apolo voltava a aparecer, no horizonte, a felicidade das musas fundia-se com a felicidade das galinhas de água e todas juntas voltavam a descer e a subir os rios. As musas pegavam os pintainhos das galinhas de agua, davam-lhe beijinhos e voltavam a colocá-los junto dos pais babados.

Mas hoje já não é assim, Quico! As nossas águas estão tão poluídas, tão poluídas, que até as flores que nascem junto dos ribeiros perderam os seus odores e ficaram sem aqueles perfumes naturais que nos encantavam e ganharam outros odores pestilentos, nauseabundos. Na água aparecem todos os tipos de venenos químicos, além de latas, plásticos, panos, papéis, borrachas, vidros, animais mortos. Um horror, Quico! Se calhar, fazes bem não quereres acompanhar o Ventor!


As ratazanas nadam muito bem. Quando se cruzam connosco, na água, elas mergulham e passam por baixo

Hoje vivemos doentes, com toda a pestilência que nos rodeia. As ratazanas que esperam sempre uma distracção nossa para nos roubarem os nossos filhotes muito pequeninos andam doentes e basta uma dentada deles para que os nossos já não sobrevivam. A nossa grande luta é com o homem e depois com as ratazanas. Aparecem aqui homens piores que as ratazanas. Procuram matar-nos de todas as maneiras que possas imaginar. O Ventor disse-me que quer ele, quer Apolo e todos aqueles que procuram o nosso bem, pelo menos, enquanto vivemos, não conseguem domesticar este animal feroz. E também me disse que não tardará muito, o Senhor da Esfera não dará a esperança de mais uma Barcaça como a do seu amigo Noé!

Mas olha, Quico, podias vir ter connosco um dia destes, pela fresca da manhã ou ao cair da noite, na companhia do Ventor. Verias como tudo que o Ventor te diz e o que eu agora te escrevo, é verdade. Não faças como os humanos que poderiam fazer qualquer coisa pelo seu ambiente e pelo nosso. Não te enclausures na tua concha! Grita ao mundo como está tão errado na forma como se conduz. Vamos morrer todos, Quico! Não eu, ou tu, ou o Ventor. Vão morrer todas as espécies que habitam o 3º Planeta. O Planeta Azul! Um aceno de asa para ti e o nosso amigo, Ventor. Não te mando um "bico" porque te posso pegar as nossas doenças.

A morte cerca-nos

  Ventor  23.08.05   Os sobreiros e os freixos estão a morrer Os matos e herbáceas estão mortos As sementes dos sanguinh...