Ventor 31.03.12
Todas as horas são ou deveriam ser,
no sentido que se pretende, a Hora do Planeta.
A Hora do Planeta, com o objectivo
que o WWF-World Wildlife Fund pretende, deveria de existir todos os dias a
todas as horas, todos os minutos, todos os segundos que os cidadãos possam
dedicar às economias energéticas e não só.
As sociedades modernas são
demasiado egoístas e, por isso, se vão tornando retrógradas nas poupanças
energéticas que, um dia tanta falta virão a fazer aos vindouros.
Eu penso no futuro daqueles que nos
substituirão nas nossas caminhadas. E, quando um dia abandonar a Luz do meu
amigo Apolo, gostaria de ir com a ideia constituída de que tudo irá correr bem
para os que ficam pois não irei querer que eles venham a ter a vida que eu tive
nos primeiros anos da minha vida, vivendo no limiar dos mínimos embora, os
possa considerar dos mais felizes que tive.
Porém, recordo-me que, nas nossas
aldeias serranas, aprendemos depressa a contar as estrelas e a saber
observá-las. Aprendemos a viver com meia dúzia de coisas e a tratar os nossos
animais domésticos como nossos iguais, porque eles eram parte integrante da
nossa vida. Dependíamos nós, mais deles, que eles de nós.
Por isso, recordo,
sempre, esses tempos de um modo muito especial. Desde que saí de Adrão,
não mais caminhei de igual modo, com a minha amiga Diana, nas suas noites mais
brilhantes, nem voltei a observar, da mesma forma, a minha amiga Vénus, a nossa
estrela da tarde e estela da manhã, quer ao cair da noite, quer ao nascer da
aurora matinal.
Não tive tempo de acompanhar a Hora do Planeta,
mas não me esquecerei que ela deve existir todos os dias, pontualmente, e isso
depende de todos nós, até dos elefantes
Por essas e muitas outras coisas
recordo os povos que vivem as suas vidas como eu vivi a minha nos
primórdios, tal como os Tuaregues, recordando aqui essa gente valorosa, cuja
riqueza maior são as areias do deserto, os tufos de ervas verdes que alimentam
os seus gados e as nascentes de água potável.
Quando saí de Adrão, com 15
anos, apenas uma vez tinha passado por Arcos de Valdevez, quando fui fazer
o exame da 4ª Classe e foi pela primeira vez, numa noite, que dormi fora
de casa, na Pensão do Sr. Lima. Dormia em Adrão ou Paradela e, apenas
por outra vez dormi no Albergue da Peneda, onde hoje é o Hotel. A
partir dos 15 anos, dormi sempre fora de casa! Agora já não tem importância
porque dormimos sempre em camas que pagamos ou que nos emprestam por uma ou
duas noites. O ninho, nunca mais foi o mesmo!
O Tuareg diz que, saído do deserto
da sua vida, chorou ao ver a água correr nas torneiras do Hotel. Que tem
saudades de pisar as areias do seu deserto descalço e que, o seu povo era,
muitas vezes, nas suas caminhadas nómadas, levado até à água, nascida nas
areias desérticas, pelos camelos. Agora, tal como eu, já terá deixado de
contar as estrelas de observá-las e de agradecer a sua companhia. Na prática,
acabamos por esquecer de as olhar.
Tal como eu, ele tem saudades do
leite da camela e eu tenho saudades do leite da ribeira.
Deixem que as flores vivem a nosso lado
Tal como eu, ele sabe que as
sociedades ditas ocidentais, mas não só, passam o tempo a correr, a
empenhar-se nos bancos, julgando que o sorriso seguinte será mais lindo.
Quantos enganos que têm mostrado as crises onde todos, uns mais outros menos,
estamos atolados.
Acredito que o Tuareg fique tão
espantado com tanta coisa, como eu fiquei, na minha chegada a Lisboa mas,
sobretudo, desejo-lhe felicidades no mundo que o vai absorvendo e êxito na
Universidade de Montpellier.
Fiquei espantado com a primeira
mulher que vi a fumar na minha vida, numa viagem de cacilheiro entre o Terreiro
do Paço e Cacilhas, em 1961. Julguei-me estar num outro mundo que não o meu!
Fiquei espantado quando me
cruzei com o primeiro indivíduo de raça negra na R. Afonso Galo, em
Almada, também em 1961. E tantas outras coisas que também terão espantado
o Tuareg, tal como as imagens de mulheres nuas que ele vê nas
paredes das cidades francesas ou nas televisões. Não é só desrespeito
pelas mulheres, não, amigo. Elas derespeitam-se a si próprias! Têm liberdade
para isso.
Eu e o Tuareg temos muitas coisas
em comum, especialmente, o azul. Ele tem mesmo que gostar do azul porque, viveu
entre o azul do céu do deserto e as areias douradas do seu mundo e, para sua
salvação, o tecido que o protegeu do pó, é também de tom azul. Também
eu gostava do céu que pairava sobre as minhas Montanhas Lindas, todas
verdes. Como gostei do primeiro mar que vi quando, em 1961, tomei o primeiro
banho de mar na praia da Costa da Caparica.
Por isso, não só aos tuaregues mas
a todos os povos do mundo, lembro-me dos meninos do Huambo e do Niassa, entre
outros, eu desejo toda a sorte do mundo e nunca se esqueçam da Hora do
Planeta! Pensar na Hora do Planeta é pensar no futuro!