Ventor 06.12.03
Numa manhã coberta, meio sol, meio sombra, levantei-me, olhei pela janela e
vi as ramadas da árvore da rua, frente à janela, a vassourar o vento. O vento
passava, esfregava-se e a árvore sacudia-se toda a tentar vassourar o atrevido
que, ia atirando contra a parede e contra as vidraças da marquise ao mesmo
tempo que, umas réstias de sol penetrante se entretinham a espreitar a refrega
entre os dois. Eu olhei e apercebi-me que umas nuvens brancas também
partilhavam dessa festa anacrónica, a cinco. Eu, o vento, a árvore, o sol e as
nuvens.
Por entre as árvores e candeeiros, em
Vilamoura, a presença do meu amigo Apolo, fonte de vida
Fui-me vestindo, ao mesmo tempo que fazia exercícios de aquecimento e
arranjava forma de ir ganhando ânimo para as restantes tarefas matinais, fazer
a barba, tomar duche, tomar o pequeno almoço, calçar-me e imaginar o que fazer
para continuar o meu dia o mais operacional possível e contrariar as investidas
da minha coluna.
Fazia falta pão para o almoço e eu achei ideal ir buscar o pão, o mais
longe possível dentro das minhas possibilidades que, no momento, não estavam a
ser grande coisa, para poder dar algum alento aos discos lombares que, em
certos momentos, precisam de afago.
Disse que ia buscar o pão, mas que ia a pé, e não sabia quando vinha, pois
ia aproveitar para dar uma caminhada, tanto quanto pudesse. Aproveitei para
caminhar, ir ao banco e trazer o pão do Borel. Sentei-me para beber um café,
numa mesa junto à janela, de onde posso fazer a cobertura visual do IC 19,
direito à serra de Sintra e aproveito para dar uma olhada para a serra e o
Palácio da Pena, lá longe, bem alcandorado sobre a serra, numa posição
majestática, mais parecendo um ninho de águia, sempre aprumado e altivo, pronto
para abraçar todo o mundo e arredores.
Pois como devem imaginar, da serra de Sintra, apesar da sua pequena altura,
consegue-se abarcar o Mundo! E se eu abarco com a minha vista, desde o Borel,
aquele belo castelo e o castelo abarca o Mundo, eu Ventor, através dele, também
abarco o Mundo.
Bebi o meu café e peguei no pão, regressando a casa e, mais uma vez, não
utilizei o caminho mais curto, mas segui pelo mais longo. Subi em direcção do
Casal de S. Brás e, depois, desci por um novo jardim que vai ser grande,
segundo o Presidente da Câmara me disse, pois irá abarcar toda a zona da
Falagueira ocupada pelas barracas junto à ribeira do mesmo nome.
Águas correntes límpidas, e pacíficas, com belos
penudos, aguardamos nos nossos ambientes
Ao descer o jardim, perante uma réstia de calor matinal, já junto ao meio
dia, apercebi-me que nesta altura do ano, ainda haviam lindas borboletas! Fiz
um desvio e, aproximei-me do "caneiro" da Falagueira, é assim que eu
chamo à ribeira, e decidi espreitar o local onde as borboletas foram pousar,
depois de virem sempre a dar à asa à minha frente, até junto dos arbustos e do
canavial ali existente.
Espreitei e verifiquei que junto a umas canas, o local era escuro.
Aproximei-me mais e, imaginem, descobri uma rocha que muita gente terá deixado
de ver devido às "machambas" ali existentes e ao matagal junto à água
corrente, mas conspurcada pela poluição como todas as águas correntes, hoje em
dia.
Voltei a ver as borboletas, lindas como sempre, e ao tentar regressar ao
caminho, ouvi um, pzz , pzz, pzz, e achei que era um passarinho que estava ali,
se calhar como eu, mas com outro fito na observação das borboletas. O pzz, pzz,
voltou-se a repetir, e eu voltei a olhar. Qual o meu espanto, quando uma voz
magnífica se levanta do meio da rocha e me chama: "Ventor, Ventor"!
Eu começo a olhar e não vejo mais nada que a rocha negra! A voz repete:
"Ventor, que vês"? Vejo uma rocha - disse eu - uma rocha negra!
Uma rocha de basalto, tirada da Wikipédia
"Pois" - diz a rocha - "é assim que toda a
gente me vê. Não passo de uma rocha! Mas eu sou mais que isso, Ventor. Lá que
as outras pessoas não me vejam, eu ainda aceito, mas tu Ventor!? Tu não
consegues olhar para a rocha e ver-me"?
Bem, eu estou reduzido a um simples observador dos homens, mas tu, estás
para além de uma simples criatura humana. Por isso me tens passado
despercebida, mas já agora, identifica-te e diz-me que fazes aí, como uma mera
rocha negra?
Como calculas não tenho assim tanto poder que possa aperceber-me de todos
os sons que ouvi através dos milénios!
E assim falou para mim aquela rocha negra: "Eu sou a desterrada de
Vulcano, Ventor! Antes das Tâgides, a quem Camões pediu inspiração, e ainda
muitos outros antes do Camões, era eu quem inspirava os poetas que antecederam
todos aqueles de quem as gentes, através dos milénios, têm ouvido falar. Eu,
Ventor, sou uma Tâgide dos princípios do Mundo, ainda do tempo em que o Tejo
era embalado pelas ninfas das fontes como uma corguinha onde se acumulavam as
escorrências das águas das nascentes e das chuvas".
"Eu percorri todos os caminhos dos arautos da poesia, que através dos
tempos têm cantado canções já esquecidas dos homens e do tempo. Vulcano furioso
com a minha condescendência para com os primeiros habitantes desta linda terra
que posteriormente veio a ser a tua Lusitânia, lançou-me um anátema e
transformou-me nesta rocha negra, que tu vês! Por aqui tenho estado há
milénios, desde o tempo que Vulcano revolveu toda esta terra e me transformou
num amontoado de lava consistente e dura para toda a eternidade".
"Essas borboletas que tu tens vindo a apreciar, são as minhas
companheiras de infortúnio. Foram elas que te foram buscar aí a cima, e te
trouxeram até mim, pois eu sempre que te vejo passar, apetece-me falar-te, mas
tu segues sempre apressado e determinado na persecução dos teus objectivos e
nunca me atrevi a implorar-te o teu reconhecimento da minha desventura.
Hoje estás mais calmo, sem pressas e pronto a ouvir todos os desgostosos
dos seus infortúnios e achei que estava na hora de alguém ficar a saber da
minha existência aqui, em forma de rocha, a que muitos, já se atreveram a
confundir com uma moura encantada".
macho-machon - A beleza animal e vegetal
dependerá da nossa preocupação com o futuro
"As mouras de que falam são as ninfas que me guardam e que se
transformam em borboletas e vão tentando inspirar as pessoas a terem forças,
senão para cantarem as suas novas canções, pelo menos a continuarem a suportar,
no seu infortúnio, o peso das injustiças".
"Mas olha Ventor, eu já fui feliz aqui, em forma de pedra negra,
quando esta ribeira era percorrida por águas límpidas, e as suas encostas eram
floridas. Esta já foi uma terra ilídica, cheia de flores e muitos outros
encantos da Natureza. Ainda há bem pouco tempo, alguns anos apenas, eu servia
de lavadouro às mulheres da terra. Eu via por estas margens as crianças
brincarem atrás das minhas borboletas, a apanharem flores e, deliciando-se a
ouvir o cântico dos grilos e dos ralos.
Grilos - Uma beleza entre as ervas ... nos poulos
das minhas Montanhas Lindas
"Viam saltar os gafanhotos e o esvoaçar das libelinhas azuis e verdes
e banhavam-se nas águas límpidas que escorriam encostas abaixo, por entre
salgueiros, abençoadas por S. Brás. Agora, só vejo à minha volta, a
conspurcação total, que desce desde a serra da Mira, e se vai infiltrar naquele
rio Tejo que eu já fiz o mais lindo de todos. O Tejo já foi invejado pelo Reno,
pelo Sena, pelo Danúbio, pelo Tamisa" ...
"Todos os grandes rios da Europa já invejaram o Tejo, pela sua beleza
bucólica, pelas suas águas puras, pelas suas Tâgides. O Reno teve o seu Anel de
Nibelungo, o Danúbio teve o seu azul, as suas balsas e os seus cisnes, mas o
Tejo teve na sua embocadura as partidas de grandes esperanças e as chegadas de
fragatas cheias de mundos. Luta por isso tudo Ventor! Luta para que esta
ribeira volte a ter vida limpa, para que a minha aparência, embora negra, volte
a ser airosa e bela. Tão bela que as borboletas possam esvoaçar sob os raios de
sol límpidos, onde Apolo possa continuar a passear o seu belo manto dourado
espraiado sobre veludo azul, cosido com linhas de platina, e continue a fazer
brilhar seus raios sobre estas águas".
Despedi-me da desterrada de Vulcano que ficou mergulhada no seu profundo
lamento e parti para o almoço. Para trás ficaram também as borboletas num puro
bailado aéreo exibindo as suas vestes multiformes e multicolores para que eu as
recordasse como continuam belas na companhia da sua ama.
É de um bom ambiente que depende o nosso mundo e
das flores, a sua beleza. Por aqui já houve carrasca e ainda as há da
parte de trás viradas para Belas

Eu quero ser eterno companheiro do Ventor na nossa
Grande Caminhada