Ventor 30.04.24
terça-feira, 30 de abril de 2024
Borboletas
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
A vanessa atalanta
Ventor 28.12.2012
... ou Red Admiral ou, a Ninfa dos Bosques ou, ainda, a Fada do Ventor.
A Vanessa Atalanta, também conhecida como a Red Admiral, vista de cima
Esta espécie de borboleta, da família Nymphalidae, encontra-se, dizem os sabidos, nas regiões temperadas dos continentes europeu, asiático e americano e, tem sido, digo eu, uma das minhas companheiras, preferidas, nas minhas caminhadas por bosques e campos de flores, especialmente, por aqui, na zona da grande Lisboa, embora ela caminhe comigo por todos os sítios por onde ando.
Esta espécie, mede cerca de 6,5 centímetros, e é uma das maiores borboletas que migra devido ao frio. Tenho na ideia que, a primeira vez que foi vista, foi na Noruega, por um certo almirante e, daí, ela ser hoje conhecida como a Red Admiral, embora ela habite na Europa, Ásia e América do Norte.
Na sua migração, devido aos frios,
ela pode voar 2.000 km e voar de noite e de dia, possivelmente, fugirá da
Europa para o Norte de África, onde também é encontrada.
Vanessa Atalanta - caterpillars: uma foto da autoria de James K. Lindsey, tirada da Wkipédia, arquivo licensiada sob o Creative Commons Uveďte autora-Zachovejte licenci 2.5 Generic
Estes bicharocos peludos, vão dar na belíssima Vanessa, a minha Ninfa dos Bosques, tal como a classifiquei em 2004 e, só de os ver, fazem-me perder os estribos e fico com pele de galinha, tal e qual a minha mãe. Não fico tão apavorado como ela mas, pouco falta.
De qualquer modo, sei que todos os
dias das minhas caminhadas, durante todo o ano, encontro borboletas e, sei
também que, a grande maioria de borboletas conhecidas, são vistas em Portugal.
Também sei que, a minha Vanessa, a minha Ninfa dos Bosques que, em 2004, caminhou a meu lado, durante vários meses e, no mês de Novembro desse mesmo ano, ela sumiu para sempre da minha vista depois de me acompanhar cerca de 7 meses, no mesmo sítio. Fiquei com a impressão que ela me esperava todos os dias e me aparecia sempre que eu chegava àquele local. Ela saía do mato e pousava no meu braço ou na minha cabeça e, até parecia que dizia, "olá, Ventor"!
Pelo menos, sou eu que continuo a sonhar com aquela minha Fada, com as suas cores lindas e, também, como ela embeleza, por esse mundo, o nosso Planeta Azul.
sábado, 22 de setembro de 2012
Uma caminhada pela Peneda
Ventor 22.09.12
Foi uma bela caminhada pelos escadórios da Senhora da Peneda.
Eu sou um sáurio amigo do Ventor. O
Ventor chamou-me Trivolta, porque eu dei três voltas para lhe fugir
pensando que era outro mas, depois de o fixar nos olhos, vi logo que só podia
ser o Ventor e desisti. Estou aqui a ver passar os visitantes, velhos ou
futuros romeiros que gostam da Senhora da Peneda.
Para aqueles que não conhecem, vivo nos escadórios da Peneda, na serra do mesmo nome, pertenço a Arcos de Valdevez, Viana do Castelo e, claro, em Portugal. Sou português como o Ventor
Pertenço a uma das mais de 5.000
espécies de lagartos existentes neste Planeta Azul que se espalham por
todos os continentes menos pela Antárctida. Para animar aqueles que não gostam
ou receiam as várias espécies de lagartos, informo-vos que apenas duas
espécies, o monstro de gila e o lagarto de contas, o primeiro é do Sul dos Estados Unidos e o segundo é da América
Central, são venenosos. Nós damos uma boa ajuda aos humanos porque nos
alimentamos de insectos e de ratos. Por isso o Ventor é nosso amigo e adora
observar-nos pelas encostas das suas Montanhas Lindas.
Foto pública, do lagarto, monstro de
gila, tirada da Wikipédia
Foto do lagarto de contas, tirada da Wikipédia publicada sobre a licença
No entanto, não esqueçam que, mesmo os lagartos venenosos, têm direito a viver, tal como nós, neste nosso belo Planeta Azul. Eles também têm a sua função determinada pelo Senhor da Esfera.
Pode ver, o album, aqui, no Shutterfly (já não há album no Shutterfly!)
Assim, pode ver as fotos que o
Ventor tirou descendo e subindo, nos trilhos que os romeiros iriam caminhar, na
próxima romaria, de 1 a 8 de Setembro. Mas, como podemos ver, o Ventor nunca
está só!
Ele caminha pela mão da Senhora da
Peneda, Nossa Senhora das Neves, em pleno verão e, sempre observados pelos
velhos amigos de outrora. Cobras, lagartos, lagartixas, borboletas, abelhas,
moscardos e tantos outros que fizeram deste belo vale e suas montanhas, o seu
paraíso, não deixando de ser Belezas do Ventor, neste Planeta Azul.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2006
Bichos peludos
12.01.06
Ventor 12.01.06
Este planeta está louco ou eu já não controlo nada. É difícil acompanhar a evolução desta maravilha redonda que gira no espaço e a que poderei chamar um invólucro de bichos. Sim porque nós também somos bichos. Uns mais outros menos! Senão vejamos. Pela evolução que isto leva há zonas do Globo que não me admiraria nada que ainda se pratique ou se venha a praticar canibalismo. Não? Não sei, não sei! Mas hoje não vou teclar de coisas tão drásticas. Vou teclar sobre peludos.
Estas coisinhas lindas para uns e feias, quanto baste, para outros, vão transformar-se em belezas voadoras. Mas fazem-me uma confusão dos diabos! Eu estava habituado a vê-los nascer no meio das ervas e matos pela Primavera e Verão e agora, começo a vê-los nascer no Outono e no Inverno!
Claro que isto até poderá ser normal, para mim não. Para mim, ver nascer bichos destes no frio do Inverno é algo de outro mundo. E posso dizer-vos que fiquei muito admirado! Senão vejam. Fui dar uma das minhas passeatas numa das minhas serras e, caminhando, procurava encontrar algo novo, algo que para mim fosse novidade nesta altura do ano e estava a pensar em flores. Em flores selvagens que tropeçamos pelo ano fora e descobri umas pequenas maravilhas brancas e rosas acompanhado por uma garça, à distância.
Adoro ver estas belezas quando isoladas, dizendo-nos olá
Tentei procurar outras flores e comecei a olhar para
as ervas e pequenas moitas à minha volta e, de repente, sai-me uma flor, mas
peluda. Uma beleza e foi o suficiente para perder ali algum tempo com estes
meus amigos/as, de rabo para o ar para tentar ver o máximo e não pisar nenhum.
Tarefa árdua!
Haviam vários, mas nada comparado com aquilo que em tempos vi nos vales das minhas montanhas. Eram às centenas, em grupo
Uma arrelia que este planeta teima em não sair dela e porque acho que os dias quentes fizeram proliferar os ovos das minhas lindas borboletas mais cedo. Não são só as árvores que se começam a vestir mais cedo, mas também as fadas dos bosques estão com pressa de fazer companhia ao vosso amigo Ventor.
Estas devem ser daquelas belas amarelas que já mostrei por aqui
Estas devem ser filhotas daquelas beldades albi-negras amorosas que ou eu ou o Quico já mostramos aqui a fazer amor, lembram-se?
Deixa-me agarrar bem Ventor e depois podes dizer o que te apetecer
As mães delas conversaram muito comigo e tal como eu admiraram-se muito de ver, o ano passado, tojos floridos de um amarelo tão intenso que mais pareciam uma enorme tapeçaria na qual convivia uma enorme catrefa de bichos voadores, ente os quais as minhas belezas multicoloridas. Hoje, 60% dos tojos estão secos e os outros 40% estão a começar a florir.
A mesa está posta e suas excelências vão se servindo, vamos ver
Neste momento gostava muito de saber se algumas destas maravilhas vão resistir aos frios que certamente ainda caminharão sobre elas. Mas, se calhar, não será por acaso que serão peludas, embora em pleno Outono eu encontrasse uma bem carequinha!
terça-feira, 12 de julho de 2005
Caminhar na seca
Ventor 12.07.05
Hoje fiz uma caminhada de duas horas e meia à torreira do sol. Desci a serra da Mira entre a folhagem do nada. Ainda vi um peneireiro e cinco perdizes, mas este ano nada resiste. Aquelas belas flores selvagens não estavam lá. Havia apenas meia dúzia delas a que chamei: as resistentes! Morreu tudo! Fugidas do sol, sabendo procurar a sombra, tal como nós, levantavam aos meus pés algumas das belas borboletas que ainda vão resistindo também. Este planeta está mesmo cheio de Arrelias e os homens, não ajudam mesmo!
Uma linda borboleta minha companheira de caminhada
Um mini louva-a-deus
Um gafanhoto que me disse muito mal da vida
Ela quis à viva força que eu lhe dissesse que era
linda
As cigarras fizeram um festival para mim nos troncos dos eucaliptos
Resistir, resistir, resistir!
domingo, 20 de março de 2005
Olá, Primavera
Ventor 20.03.05
Vem aí a Primavera.
Serra de Sintra, na Lagoa Azul
Vamos entrar em mais uma. Sim porque todos os anos têm uma Primavera! Espero que o ano de 2005 também tenha a sua. Houve tempos em que as flores definiam as Primaveras, mas hoje já não é bem assim, pois flores há todo o ano. No entanto, na Primavera há mais! Mas as Primaveras costumam, para além de irradiar flores, serem radiantes de vida e isso eu já estou a ver este ano.
Já vi a primeira andorinha de 2005, já vi as borboletas bailarem à minha frente, já assisti às minhas sinfonias mágicas com abelhas e besouros num belo palco amarelo, pintado com uma tinta especial - a flor do tojo. Também já vi as rolas, os melros, os gaios e demais passarada, nos seus namoriscos. Enfim, já vi tudo que dá para poder definir uma Primavera. O que eu não vi foi o Inverno e já não vale a pena procurá-lo. Vi apenas alguns dias frios! Não vi chuva, não vi tempestades a virar guarda-chuvas, não vi nada a não ser descontentamento. Mas vi o chão gretado pela seca, com autênticas cavernas e vi a aflição das flores e das plantas a tentarem sobreviver devido à seca.
Serra de Sintra em volta da Lagoa Azul
Agora vem aí a Primavera e com ela o dia da Árvore. As pessoas, comandadas por grupos cheios de boa vontade, vão plantar árvores em locais homenageando assim uma das belezas que a Natureza nos oferece. A árvore é bela e útil para a humanidade e seus companheiros de caminhada e aqueles que já passaram por desertos, sabem avaliar o quanto vale uma árvore.
Para mim as árvores são belas companheiras de caminhada. Tenho bastantes árvores cinquentenárias, plantadas por mim quando pequeno. Algumas já foram úteis para a família. Já deram madeiras e lenha pelos anos fora, outras já morreram queimadas por indivíduos trôpegos de mente. Mas hoje recordo, vivamente, o carinho com que plantava uma árvore. Com que a agarrava e a prendia à vida. À vida dela e à nossa.
Um salgueiro
Recordo como as limpava, como as replantava em locais
mais adequados e como ficava fulo quando os meus pais entendiam que a árvore
não podia estar ali. Aí ainda era pequeno de mais e o sítio não era realmente o
adequado, mas eu tratava a árvore como o ser vivo que é. Pegava nela e dava-lhe
o local adequado e a minha mãe ficava toda encantada. Havia um velhote, o ti
Dafonte, que dizia que eu iria ser um grande jardineiro. Quem me dera! Afinal
nasci para mexer em muita coisa, mas não em jardins. No entanto, sei
apreciá-los! Dói-me a alma quando vejo os jardins mal tratados por vândalos da
sociedade! As pessoas, normalmente, embora não perceba porquê, são mais
inspiradas a fazer mal.
Os "gatos" dos salgueiros e o meu amigo a mostrar-mos
Em Massamá, plantei 6 árvores nos largos canteiros do passeio abandonados por todos. Foi o meu trabalho ao comprar ali casa. Árvores bonitas, das quais três eram palmeiras. Tinha uma sempre noiva que estava sempre florida e a malandragem partia-lhe os galhitos e depois partiu-a a ela. Quantas vezes eu ia a Massamá, de propósito, só para as regar a ver se resistiam aos calores dos Verãos. Ninguém ligava aos canteiros e eu até me permiti, enterrar o meu Rafinho (coelhinho anão) entre duas dessas pequenas árvores.
Um dia alguém se lembrou de ajardinar os canteiros, em
Massamá. Chegaram e cortaram as árvores para colocarem lá outras, por sinal de
mau gosto. Foi um grande choque porque tinha ali investido uma "pequena
fortuna" em árvores e trabalho, devido ao abandono que se verificava. As
minhas palmeiras eram bem mais bonitas do que as que as substituíram. Enfim,
negócios!
A beleza de um carvalho
Agora, espero que as árvores que vão ser plantadas
neste Dia da Árvore, tenham água para sobreviver ao verão seco que se avizinha
e que não pensem nas árvores apenas neste dia. Claro que não vos vou pedir para
passarem a vida a plantar árvores, e depois aparecerem outros e cortá-las, mas
peço-vos para as olharem, as respeitarem e agradecer-lhes a sua presença na
nossa caminhada.
Uma janela, algures na Beloura
sábado, 6 de dezembro de 2003
Uma rocha negra de basalto
Ventor 06.12.03
Numa manhã coberta, meio sol, meio sombra, levantei-me, olhei pela janela e vi as ramadas da árvore da rua, frente à janela, a vassourar o vento. O vento passava, esfregava-se e a árvore sacudia-se toda a tentar vassourar o atrevido que, ia atirando contra a parede e contra as vidraças da marquise ao mesmo tempo que, umas réstias de sol penetrante se entretinham a espreitar a refrega entre os dois. Eu olhei e apercebi-me que umas nuvens brancas também partilhavam dessa festa anacrónica, a cinco. Eu, o vento, a árvore, o sol e as nuvens.
Por entre as árvores e candeeiros, em Vilamoura, a presença do meu amigo Apolo, fonte de vida
Fui-me vestindo, ao mesmo tempo que fazia exercícios de aquecimento e arranjava forma de ir ganhando ânimo para as restantes tarefas matinais, fazer a barba, tomar duche, tomar o pequeno almoço, calçar-me e imaginar o que fazer para continuar o meu dia o mais operacional possível e contrariar as investidas da minha coluna.
Fazia falta pão para o almoço e eu achei ideal ir buscar o pão, o mais longe possível dentro das minhas possibilidades que, no momento, não estavam a ser grande coisa, para poder dar algum alento aos discos lombares que, em certos momentos, precisam de afago.
Disse que ia buscar o pão, mas que ia a pé, e não sabia quando vinha, pois ia aproveitar para dar uma caminhada, tanto quanto pudesse. Aproveitei para caminhar, ir ao banco e trazer o pão do Borel. Sentei-me para beber um café, numa mesa junto à janela, de onde posso fazer a cobertura visual do IC 19, direito à serra de Sintra e aproveito para dar uma olhada para a serra e o Palácio da Pena, lá longe, bem alcandorado sobre a serra, numa posição majestática, mais parecendo um ninho de águia, sempre aprumado e altivo, pronto para abraçar todo o mundo e arredores.
Pois como devem imaginar, da serra de Sintra, apesar da sua pequena altura, consegue-se abarcar o Mundo! E se eu abarco com a minha vista, desde o Borel, aquele belo castelo e o castelo abarca o Mundo, eu Ventor, através dele, também abarco o Mundo.
Bebi o meu café e peguei no pão, regressando a casa e, mais uma vez, não utilizei o caminho mais curto, mas segui pelo mais longo. Subi em direcção do Casal de S. Brás e, depois, desci por um novo jardim que vai ser grande, segundo o Presidente da Câmara me disse, pois irá abarcar toda a zona da Falagueira ocupada pelas barracas junto à ribeira do mesmo nome.
Águas correntes límpidas, e pacíficas, com belos penudos, aguardamos nos nossos ambientes
Ao descer o jardim, perante uma réstia de calor matinal, já junto ao meio dia, apercebi-me que nesta altura do ano, ainda haviam lindas borboletas! Fiz um desvio e, aproximei-me do "caneiro" da Falagueira, é assim que eu chamo à ribeira, e decidi espreitar o local onde as borboletas foram pousar, depois de virem sempre a dar à asa à minha frente, até junto dos arbustos e do canavial ali existente.
Espreitei e verifiquei que junto a umas canas, o local era escuro. Aproximei-me mais e, imaginem, descobri uma rocha que muita gente terá deixado de ver devido às "machambas" ali existentes e ao matagal junto à água corrente, mas conspurcada pela poluição como todas as águas correntes, hoje em dia.
Voltei a ver as borboletas, lindas como sempre, e ao tentar regressar ao caminho, ouvi um, pzz , pzz, pzz, e achei que era um passarinho que estava ali, se calhar como eu, mas com outro fito na observação das borboletas. O pzz, pzz, voltou-se a repetir, e eu voltei a olhar. Qual o meu espanto, quando uma voz magnífica se levanta do meio da rocha e me chama: "Ventor, Ventor"! Eu começo a olhar e não vejo mais nada que a rocha negra! A voz repete: "Ventor, que vês"? Vejo uma rocha - disse eu - uma rocha negra!
Uma rocha de basalto, tirada da Wikipédia
"Pois" - diz a rocha - "é assim que toda a gente me vê. Não passo de uma rocha! Mas eu sou mais que isso, Ventor. Lá que as outras pessoas não me vejam, eu ainda aceito, mas tu Ventor!? Tu não consegues olhar para a rocha e ver-me"?
Bem, eu estou reduzido a um simples observador dos homens, mas tu, estás
para além de uma simples criatura humana. Por isso me tens passado
despercebida, mas já agora, identifica-te e diz-me que fazes aí, como uma mera
rocha negra?
Como calculas não tenho assim tanto poder que possa aperceber-me de todos
os sons que ouvi através dos milénios!
E assim falou para mim aquela rocha negra: "Eu sou a desterrada de Vulcano, Ventor! Antes das Tâgides, a quem Camões pediu inspiração, e ainda muitos outros antes do Camões, era eu quem inspirava os poetas que antecederam todos aqueles de quem as gentes, através dos milénios, têm ouvido falar. Eu, Ventor, sou uma Tâgide dos princípios do Mundo, ainda do tempo em que o Tejo era embalado pelas ninfas das fontes como uma corguinha onde se acumulavam as escorrências das águas das nascentes e das chuvas".
"Eu percorri todos os caminhos dos arautos da poesia, que através dos tempos têm cantado canções já esquecidas dos homens e do tempo. Vulcano furioso com a minha condescendência para com os primeiros habitantes desta linda terra que posteriormente veio a ser a tua Lusitânia, lançou-me um anátema e transformou-me nesta rocha negra, que tu vês! Por aqui tenho estado há milénios, desde o tempo que Vulcano revolveu toda esta terra e me transformou num amontoado de lava consistente e dura para toda a eternidade".
"Essas borboletas que tu tens vindo a apreciar, são as minhas
companheiras de infortúnio. Foram elas que te foram buscar aí a cima, e te
trouxeram até mim, pois eu sempre que te vejo passar, apetece-me falar-te, mas
tu segues sempre apressado e determinado na persecução dos teus objectivos e
nunca me atrevi a implorar-te o teu reconhecimento da minha desventura.
Hoje estás mais calmo, sem pressas e pronto a ouvir todos os desgostosos dos seus infortúnios e achei que estava na hora de alguém ficar a saber da minha existência aqui, em forma de rocha, a que muitos, já se atreveram a confundir com uma moura encantada".
macho-machon - A beleza animal e vegetal dependerá da nossa preocupação com o futuro
"As mouras de que falam são as ninfas que me guardam e que se
transformam em borboletas e vão tentando inspirar as pessoas a terem forças,
senão para cantarem as suas novas canções, pelo menos a continuarem a suportar,
no seu infortúnio, o peso das injustiças".
"Mas olha Ventor, eu já fui feliz aqui, em forma de pedra negra, quando esta ribeira era percorrida por águas límpidas, e as suas encostas eram floridas. Esta já foi uma terra ilídica, cheia de flores e muitos outros encantos da Natureza. Ainda há bem pouco tempo, alguns anos apenas, eu servia de lavadouro às mulheres da terra. Eu via por estas margens as crianças brincarem atrás das minhas borboletas, a apanharem flores e, deliciando-se a ouvir o cântico dos grilos e dos ralos.
Grilos - Uma beleza entre as ervas ... nos poulos das minhas Montanhas Lindas
"Viam saltar os gafanhotos e o esvoaçar das libelinhas azuis e verdes e banhavam-se nas águas límpidas que escorriam encostas abaixo, por entre salgueiros, abençoadas por S. Brás. Agora, só vejo à minha volta, a conspurcação total, que desce desde a serra da Mira, e se vai infiltrar naquele rio Tejo que eu já fiz o mais lindo de todos. O Tejo já foi invejado pelo Reno, pelo Sena, pelo Danúbio, pelo Tamisa" ...
"Todos os grandes rios da Europa já invejaram o Tejo, pela sua beleza bucólica, pelas suas águas puras, pelas suas Tâgides. O Reno teve o seu Anel de Nibelungo, o Danúbio teve o seu azul, as suas balsas e os seus cisnes, mas o Tejo teve na sua embocadura as partidas de grandes esperanças e as chegadas de fragatas cheias de mundos. Luta por isso tudo Ventor! Luta para que esta ribeira volte a ter vida limpa, para que a minha aparência, embora negra, volte a ser airosa e bela. Tão bela que as borboletas possam esvoaçar sob os raios de sol límpidos, onde Apolo possa continuar a passear o seu belo manto dourado espraiado sobre veludo azul, cosido com linhas de platina, e continue a fazer brilhar seus raios sobre estas águas".
Despedi-me da desterrada de Vulcano que ficou mergulhada no seu profundo lamento e parti para o almoço. Para trás ficaram também as borboletas num puro bailado aéreo exibindo as suas vestes multiformes e multicolores para que eu as recordasse como continuam belas na companhia da sua ama.
É de um bom ambiente que depende o nosso mundo e
das flores, a sua beleza. Por aqui já houve carrasca e ainda as há da
parte de trás viradas para Belas
Eu quero ser eterno companheiro do Ventor na nossa Grande Caminhada
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