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sábado, 28 de outubro de 2017

Aranhas e vespas

 Vento28.10.17

Hoje, sentado aqui, caminhando com Todos os Santos, recordo uma parte da tarde que vivi, em redor do Lugar do Sol, no domingo, 29.10.2017, no dia que o meu amigo Santiago fez anos. Como sempre, deixei-os a brincar, a conversar, a comer, a beber e, fui dar a minha caminhada do costume.

Caminhava quase sem companhia. Onde costumo caminhar entre flores lindas, coelhos, perdizes, mochos e muita passarada, caminhava com tudo seco por onde esvoaçavam alguns pássaros e lá por cima, bem alto, uma águia. Por fim, no meio daquela monotonia, onde só via secura, um grupo de pinheiros, uns carrascos com bolotas quase do tamanho deles, tudo cercado pelo horizonte com a serra de Sintra na sua linha, lá me apareceu a aranha de cruz para me animar.

A aranha de cruz 

Mas foi o diabo para a fotografar. Creio que ela construiu a sua teia com inteligência. Tinha algo na boca, uma peça da sua caçada na despensa e outro insecto preso, ainda vivo que, julgo, não correu para ele para o embrulhar, por minha causa. Mas ficou lá preso a tentar a liberdade.

Recordo-me que, quando era puto, na serra de Soajo, no monte chamado Gondomil, frente ao lugar de Adrão, foi onde vi as maiores aranhas de cruz até hoje. Faziam as teias de urze a urze e quando eu corria monte adiante, ou monte abaixo, às vezes até me sentia caçado naquelas teias gigantes. Só ficava descansado quando me apercebia que a aranha não estava na teia que me enrolava.

Continuei a minha caminhada por entre tojos e carrascos e fui dar com esta bicharoca, mais comprida e, também, tal como a aranha de cruz, é uma aranha de jardim. 

Uma aranha de jardim, Argiope trifasciata que aparece por todo o mundo

Esta também foi difícil de fotografar. Elas constroem as teias em locais quase inacessíveis para poderem estar à vontade e ninguém as perturbar. Cães, raposas e outra bicharada passam por baixo e deixam a teia intacta e os insectos são caçados com a mestria que conhecemos. As suas teias podem atingir um diâmetro de 60 cm e um comprimento de tela até 2 metros, conforme o tamanho da aranha.

Vespas 

Em tempos, no Borel, na Amadora, encontrei uma aldeia no solo e não sabia de que seria aquilo. Eram vários buracos no chão duro como esse. As vespas eram de outra espécie e, enquanto eu as observava, tal como se de uma colmeia se tratasse, entravam umas e saíam outras, buracos dentro, buracos fora.

Essa espécie, na foto em cima, nem sei porque não me picaram. Elas saíam em grupo e entravam em grupo nesse único buraco mas achei engraçado como elas têm um sistema de defesa. Eu aproximava-me e elas entravam todas no buraco, eu afastava-me e elas saíam em grupo do buraco. E fiz aquilo várias vezes para confirmar. Passos em direcção do buraco e elas buraco dentro, passos atrás e elas buraco fora. Por fim fui-me embora não fosse o diabo tece-las.

E, hoje, cá estou eu a viver momentos passados. A viver hoje, os momentos de um dia anterior com os nossos companheiros de caminhadas neste belo Planeta Azul.

sábado, 8 de abril de 2006

Os mochos

 Ventor 08.04.06

 Na 3ª feira de Carnaval deste ano da graça de 2006, o Ventor andou atrás dos mochos, ali pela zona norte de Santarém, a cerca de 20 Kms, por caminhos de terra entre campos salpicados de amendoeiras floridas, cerca de uma dezena. Ele fez uma das suas lindas caminhadas e parou junto de uma grande árvore para fotografar alguns passarinhos que se entretinham lanchando, e começou a pensar que por ali teria forçosamente que haver mochos.

Diz que os pássaros permaneceram na árvore mas sempre saltitando protegidos pelos ramos, quase sempre nos 50% da árvore oposta ao Ventor. De repente ouviu aquilo que lhe parecia um som familiar, um “piu-piu” como o da nossa amiga Mouchinha. Encaminhou-se lentamente, estilo leopardo, para o lado de onde vinha o som e encontrou, sobre um poste, um rapazola penudo que rodou sobre si mesmo e fixou o olhar naquele arcabouço que se deslocava na sua direcção.


Um mocho observando-me

«Ora, ora, Ventor, só podias ser tu»!

“Olá! Não fujas que eu não te faço mal” – disse-lhe eu.

«Nah, nah! Tens aí um olho maior que os meus e não gosto disso. Pensas que eu sou parvo, Ventor? Andas aí armado em Paparasi! Mas olha, a minha namorada mascarou-se de fada e eu chamo, chamo, e ela não me liga! Se deres por aí uma volta e deres com ela, talvez eu consiga convencê-la a posar para ti»!

“Então e tu? Porque não a procuras”?

«Eu? Bem, eu não sou lá muito fotogénico, mas está bem. Talvez consigas fotografar os dois! Quanto a procurá-la … não vale a pena. Quando se mascara de fada, ninguém dá com ela».

De repente, o Ventor ouviu outro piu-piu e caminhou para lá. Então o mocho foi à frente do Ventor para o mesmo lado. À medida que o Ventor se aproximava, ouvia a namorada a ralhar com ele.

 

A mocha

… «ainda nem somos noivos e já fazes negócios com estranhos, como se fosses meu senhor»!

… e continuou a gritar, e o Ventor viu o mocho voltar para o poste onde tinha estado e ela, zangada, voou atrás dele. Mas, ao mesmo tempo que ela se aproximava, o mocho saiu do poste e ela pousou sobre a oliveira ao lado. Ele foi pousar noutra oliveira mais afastada e ela levantou voo atrás dele e foi pousar na outra ao lado e sempre a ralhar.

O Ventor quase só a ouvia a ela.

«Olha lá meu esbugalhado, que negócio era aquele entre tu e o Ventor»?

“Não era negócio nenhum. O Ventor pediu-me para nós o deixarmos tirar umas fotos. Só isso! Eu disse-lhe que sim mas que primeiro teria de te encontrar”.

«Meu grande aldrabão esbugalhado! Nem tens habilidade para mentir nem para me encontrares. Tu querias, pois eu ouvi bem, que o Ventor me procurasse porque tu não eras capaz, pois eu estava bem escondidinha»

“Não é verdade, não é verdade, não …eu …“

«Cala-te mentiroso … ainda tu querias ficar meu noivo. Nunca»!

“Mas …”

Nem mas, nem meio mas. O Ventor nunca terá uma foto minha e tu … »

“Não digas, não digas … não me faças o mocho mais infeliz do mundo”!

«Se deixares que o Ventor te fotografe eu….

 

O amor chama do outro lado

O Ventor virou-lhe as costas e foi até às 4 amendoeiras floridas que faziam bandeirame à “picada” regressando aos seus amigos para mais uma brincadeira de Carnaval, voltando ainda, ao cair da noite, a tentar animar aquele casalinho de mochos desavindos, mas em vão.

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